terça-feira, 15 de novembro de 2011

Obama, Zumbi dos Palmares e o despertar da Consciência Negra



José de Souza Castro*

Um estudo baseado na Pesquisa de Emprego e Desemprego da Fundação Seade e do Dieese*, divulgado dois dias antes do Dia da Consciência Negra (20 de novembro), mostra que a situação do negro na porção mais rica do território brasileiro - a Região Metropolitana de São Paulo - melhorou, se comparada com 1998 e com a situação dos não-negros, mas a situação dos trabalhadores em geral piorou: o rendimento médio dos negros diminuiu 22,2% no período, para R$ 4,36 por hora trabalhada, e o dos não-negros caiu 27,4%, para R$ 8,98. Com isso, reduziu ligeiramente a desigualdade entre os dois grupos. Porém, o negro brasileiro está ainda longe de poder aspirar à presidência da República, como Barack Obama, nos Estados Unidos, pois quanto mais estuda, mais ele se distancia dos brancos com o mesmo grau de escolaridade no mercado de trabalho.
Em 1926, no livro O Choque das Raças - título mudado depois para O Presidente Negro - Monteiro Lobato previu que um negro chegaria à presidência dos Estados Unidos em 2228. Barack Obama veio para confirmar sua previsão, com espantosos 220 anos de antecedência. Lobato não ousou prever quando isso ocorreria no Brasil, país considerado bem menos racista. Mas, como já se fala numa possível eleição de uma mulher em 2010, não será surpresa se tivermos também nosso primeiro presidente negro, se de fato Lula conseguir fazer de Dilma Rousseff a sua sucessora, quebrando um tabu histórico e abrindo caminho para novos avanços.
Não se pode perder de vista, no entanto, essa realidade: no mercado de trabalho, como na política, a mulher brasileira, seja branca ou negra, não tem muito do que se orgulhar de nossa falta de preconceitos.
O estudo revela que as mulheres, negras ou não, obtêm rendimentos menores que os homens de seu próprio segmento racial. Mas quando se comparam os rendimentos de mulheres não-negras com os de homens negros, os delas são menores em praticamente todas as faixas de escolaridade. No entanto, os rendimentos vão se igualando na medida em que se amplia o nível de escolaridade, porque despencam mais rapidamente os rendimentos dos negros.
Ocorre que o negro com ensino superior completo recebe 29% menos do que ganha um trabalhador não-negro com a mesma escolaridade no mercado de trabalho da região pesquisada. Essa diferença é menor (16%) entre os trabalhadores com ensino fundamental incompleto e quase desaparece entre os empregados domésticos, quando os negros recebem em média R$ 3,01 por hora trabalhada e os não-negros R$ 3,23.
No comércio, observa-se que os negros recebem 64,9% do rendimento dos não-negros. A desigualdade salarial é pior no setor de serviços, na indústria e na construção civil. Em 2007, os negros recebiam em média pouco mais da metade dos não-negros, nesses setores.
Nos grupos ocupacionais de maior rendimento (gerência, direção e planejamento), os negros obtinham 57,3% da remuneração dos não-negros no mesmo grupo. Para quase se igualar com os trabalhadores brancos e de outras raças, os negros precisam exercer tarefas que exigem menor escolaridade, como os serviços gerais não qualificados. Ali, os negros recebem apenas 4,3% menos.
Uma oportunidade de romper essa desigualdade é fazer como o mineiro Joaquim Benedito Barbosa Gomes, de Paracatu. Em 1984, depois de se formar em Direito pela Universidade de Brasília, ele entrou no Ministério Público Federal e, em 2003, foi nomeado pelo presidente Lula para o Supremo Tribunal Federal. É o primeiro negro a ocupar esse cargo no Brasil, e recebe ali o mesmo salário dos outros 10 ministros brancos. Mas, até chegar lá, trabalhou como gráfico do Senado, oficial de chancelaria do Itamaraty, assessor jurídico do Serpro e consultor jurídico do Ministério da Saúde. É mestre e doutor em direito público pela Universidade de Paris-2. Ou seja, é uma exceção. E parece não aspirar à presidência da República, ao contrário de um colega branco, o presidente do Supremo, Gilmar Mendes.
Mas, em que avançaram os negros, entre 1998 e 2007, na região mais rica do país? Nessa região, os negros representam cerca de um terço da População Economicamente Ativa (PEA). São 3,678 milhões de negros (ou 36,1% da força de trabalho disponível na região) e 6,511 milhões de não-negros. Mas, entre os desempregados, em 2007, 42,9% eram negros.
Em 1998, a taxa de participação no mercado de trabalho de negros com idades entre 10 a 14 anos era de 10%. Essa taxa caiu para a metade em 2007. Diminuiu também em cerca de 10 pontos percentuais entre os negros na faixa de 15 e 17 anos, comparada com os não-negros.
A taxa de desemprego dos negros correspondia a 17,6% e a dos não-negros a 13,3%, em 2007. A taxa entre as negras era de 22,7%.
Os assalariados negros trabalham em média 44 horas semanais e os não-negros 42. Entre as mulheres, as negras trabalham 41 horas e as não-negras 40 horas.
Entre os negros ocupados, 58,5% têm até o ensino médio incompleto, contra 37,6% dos não-negros. Dentre os que completaram o ensino médio ou que estão fazendo ou já se formaram em curso superior, 41,5% são negros e 62,4% não-negros. Está ruim para os negros, mas já foi pior. Em 1998, 54% dos negros ocupados possuíam apenas o ensino fundamental incompleto e 16,2% o médio completo ou o superior incompleto. Em 2007, essas proporções se equilibram: 35,1% e 37%, respectivamente.
O fato é que o movimento dos negros pela igualdade social, inspirado na luta de Zumbi dos Palmares (1655-1695) contra a escravidão, tem tido algumas vitórias, mas a guerra está ainda longe de acabar. Pelo seu exemplo, Barack Obama talvez possa representar um reforço importante nessa luta, nos próximos quatro anos. Na minha opinião, o maior exemplo de Obama e de Joaquim Barbosa é a importância que eles deram a sua própria educação.
Quando comemoram, com razão, mais um Dia da Consciência Negra, os descendentes dos escravos não podem perder seu sonho de liberdade, apenas porque o mercado de trabalho na Região Metropolitana de São Paulo não dá aos negros a mesma importância que confere aos descendentes de europeus e asiáticos que completaram o curso superior. Uma coisa é certa: as empresas brasileiras também vão acabar aprendendo, como já ocorre no mercado de trabalho dos Estados Unidos.
* http://www.dieese.org.br/ped/peddad.xml

Negras e negros na Bíblia?



Edmilson Schinelo

Os evangelhos sinóticos são unânimes em afirmar que um certo Simão de Cirene ajudou Jesus a carregar a cruz, a caminho do Calvário (Mt 27.32; Mc 15.21; Lc 23, 26). Ora, Cirene fica no norte da África, mas alguma vez você ouviu em prédica ou sermão, na catequese, na escola dominical ou no ensino confirmatório, que um africano ajudou Jesus a carregar a cruz? Estudiosos dirão que se trata de um judeu da diáspora, visto que no norte da África havia várias colônias judaicas. Mas com que argumentos ou intenções fazem esta escolha na interpretação?
Por contrariar os interesses da corte de Jerusalém, pouco antes da destruição da cidade pelas tropas babilônicas, o profeta Jeremias foi preso e lançado numa cisterna. Um africano, funcionário do rei (seu nome, Ebed-Melec, significa "ministro do rei"), liderou um movimento para libertar Jeremias (Jr 38,1-13). Quantas vezes você se lembra de ter estudado este texto, dando atenção a este "detalhe"?
Moisés, conta-nos Nm 12, casou-se com uma africana, da região de Cush - Etiópia. Na verdade, quase toda a historia do êxodo se passa na África. Uma simples leitura do Canto de Miriã (Ex 15,19-21), com certeza um dos textos mais antigos de toda a Bíblia, nos permite notar a proximidade da cena com a rica cultura dos povos negros: canto e dança ao redor dos tambores. Você já parou para pensar nisso?
O missionário Filipe, ao "aceitar a carona" na carruagem do negro e alto funcionário de Candace, rainha da Etiópia, tem uma grata surpresa: o africano já tem em suas mãos o livro do profeta Isaías (At 8, 26-40). E há quem continue afirmando que os foram os europeus que levaram a Bíblia para a África!
Pois bem, os exemplos acima são suficientes para nos provocar ao desafio: olhar a Bíblia na perspectiva da negritude!
Em primeiro lugar, porque seguimos acreditando que o Deus da Bíblia faz opção pelas pessoas e pelos grupos mais marginalizados. Em nossa sociedade, as mulheres, as pessoas negras e indígenas continuam sendo as maiores vítimas da gritante exclusão social. Com elas aprendemos a resistir. Em segundo lugar, porque queremos e podemos descobrir as raízes negras do povo hebreu e de toda a Bíblia. De fato, antes de ser européia, a Bíblia é afro-asiática. Não negamos a contribuição européia ao nosso continente, queremos seguir trocando saberes com o chamado "Velho Continente". Mas denunciamos o cristianismo branco e opressor, com teologias que chegaram ao absurdo de justificar a escravidão negra (feita pelos brancos) e que continuam, muitas vezes, negando nossas raízes.
Não queremos fazer isso apenas pinçando textos bíblicos nos quais apareçam personagens africanas. Este até pode ser o primeiro passo, um exercício necessário e interessante. Mas é preciso mais do que isso, é preciso olharmos toda a Bíblia na perspectiva da negritude. Porque essa é nossa experiência, ainda que negada: vivemos num país onde metade da população é afro-descendente. "Coincidentemente", é a metade mais pobre.
Que aceitemos o desafio de mergulharmos na Bíblia e na vida com nosso olhar afro-descendente. Afinal, por muitos séculos, fizemos isso apenas com o olhar europeu. Erramos e acertamos, agora vemos que é preciso mais. Ou manteremos a opção, muito mais cômoda e bem menos questionadora para nossa sociedade preconceituosa e racista, de continuar enxergando apenas um Jesus loiro, de olhos azuis e cabelos cacheados?
Extraído de Bíblia e Negritude - Pistas para uma leitura afro-descendente.

Negras e negros, somos povo de consciência!!! (Claudio CEBI MG)

Cláudio Eduardo Rodrigues [1]

Os filhos de Cam: Cuxe, Mizraim, Pute e Canaã. 
Os filhos de Cuxe: Sebá, Havilá, Sabtá, Raamá e Sabtecá. 
Os filhos de Raamá: Sabá e Dedã. 
Cuxe gerou a Ninrode, o qual começou a ser poderoso na terra. 
Foi valente caçador diante do Senhor [...]. Gn 10,6-9a

Por anos a fio, enfatizou-se que 13 de Maio de 1888 é uma data significativa na história brasileira. Dia em que uma princesa, “preocupada com a condição de penúria das pessoas negras escravizadas no Brasil”, assinou lei que aboliu a escravatura. Dia em que uma princesa branca e da corte, num gesto ousado e escondido de seu pai, o imperador, teria mudado os rumos da história oficial por meio de um ato voluntário e individual.
Nessa perspectiva, para muitas pessoas e para a história oficial, 13 de Maio deveria ser a data em que todo negro e toda negra deveriam render graças a Isabel, a redentora que libertou o povo negro das atrocidades da escravidão. E, em muitos lugares do Brasil, ainda se tem essa idéia presente e reforçada.
Todavia, para o movimento negro brasileiro, não temos nada a celebrar no dia 13 de Maio, visto que a data não é expressão da história de união, organização e resistência do povo negro escravizado, explorado e excluído por mais de 400 anos. Hoje somos conscientes e procuramos gerar consciência de que a promoção de qualquer tipo de comemoração da abolição oficial da escravatura em 13 de Maio significa admitir a afirmação de que fomos passivos e aceitamos ser escravizados. Implica aceitar a afirmação preconceituosa de que, “como fomos e somos preguiçosos e acomodados”, foi preciso alguém tornar-se sensível com a nossa condição e promover nossa libertação por meio de um decreto.
Nesse sentido, ao longo dos anos que antecederam a abolição e os 119 anos posteriores àquele decreto, conquistamos a consciência de que a liberdade e a dignidade humana não podem ser objeto de concessão externa a nós mesmos, visto que qualquer tipo de concessão tem como conseqüência necessária a restrição de alguma coisa. Compreendemos e temos consciência de que a abolição da escravatura apenas nos concedeu uma “liberdade” figurada como: não estar acorrentado, não sermos submetidos a trabalho forçado e não sermos açoitados por resistir à escravidão.
Somos conscientes de que essa abolição ou liberdade não nos oferece nem oportuniza condições de viver dignamente, não nos possibilita o acesso a emprego seguro, à moradia, à educação, à saúde e a tantos outros direitos básicos. Em suma, não nos proporcionou tudo aquilo que todo ser humano merece e deve receber, independente de sua etnia, cor de pele, religião e opção sexual.
Hoje, por meio da retomada da nossa história na África e na América Latina, e, em especial, pelo nosso reencontro com nossa ancestralidade, temos a consciência de que a nossa história é de luta e resistência, de que somos povo que tem poder e astúcia como ressalta Gênesis 10,6-9a. Somos povo que, frente às adversidades impostas pela colonização – separação de famílias, mistura de grupos com línguas diferentes, etc. – tem a capacidade de reunir, organizar, resistir à opressão e de criar alternativas à sociedade de escravidão e de morte.
Percebemos essa luta e essa resistência em todos os momentos de nossa história, desde o momento em que nossos ancestrais foram arrancados da África até o seu sacrifício aqui no Brasil. Essa resistência se sucedeu pelas milhares de pessoas negras que se jogavam no mar aberto durante a travessia da África para a América, pelas Irmandades de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens de Cor que juntavam dinheiro para comprar a liberdade de outros escravos, pelos diversos grupos de congadas e terreiros de umbanda que mantiveram o culto as ancestrais de forma velada nas imagens de santos católicos, pelos grupos de capoeira que ensaiavam nas senzalas a luta contra seus algozes.
Essa resistência é mais nítida pela recuperação da memória e identificação de inúmeros quilombos que foram organizados pelo Brasil afora. Lugares de vivência alternativa e oposta à sociedade monárquica escravocrata, em que pessoas negras, indígenas e brancas podiam viver de forma harmoniosa, sem exclusão e exploração.
Por essas razões, 20 de Novembro é um dia importante a ser celebrado porque tomamos consciência de que, nesse mesmo dia do ano de 1695, Zumbi e tantas outras pessoas indígenas, brancas e negras - descendentes de Cam, poderoso e destemido aos olhos de Deus (Gn 10,6-9) -, tombaram no Quilombo dos Palmares na resistência às forças de escravidão e de morte das elites escravocratas. O sangue daquelas pessoas que tombaram e a destruição do projeto alternativo de sociedade em Palmares tornaram-se assim símbolo maior da organização e resistência para o povo negro.
A consciência disso e de muito mais nos faz entender que o dia que merece ser celebrado por nós, negros e negras, como marco da luta pela libertação, do sonho e desejo de libertação, é 20 de Novembro, como DIA DA CONSCIÊNCIA NEGRA.
Porém, é necessária, ainda, mais uma tomada de consciência. A data de 20 de Novembro não é só dia de festividade, celebração, rememoração das lutas passadas. É data forte para que se chame a atenção das pessoas - independente de raça, credo, opção sexual e política, etc. – para a necessidade de se tomar consciência dos problemas e desafios atuais que afligem as pessoas negras.
Hoje compreendemos que é um desafio sensibilizar tanto negros como outros povos e raças para a causa do povo negro, no sentido de construir um Brasil mais justo, igualitário e fraterno para todas as pessoas, pois não se pode construir tal Brasil sem resolver os problemas de nosso povo.
Nesse sentido, temos consciência de que o movimento negro conquistou muitos direitos a favor de nosso povo, tal como a lei 10.639/2003 que estabelece o ensino obrigatório da História da Cultura Afro-Brasileira, a implementação de políticas de ação afirmativa em diversos setores.
Sabemos, contudo, que a elaboração de leis e sua promulgação não são suficientes para gerar a modificação de uma realidade de preconceito e discriminação racial, pois embora “libertos” e com “direitos assegurados pela lei” ainda somos plena e constantemente discriminados pela cor da nossa pele. Isso se verifica quando somos, dentre tantos outros casos:
- explorados pelo trabalho informal nas cidades e até escravo na zona rural;
- submetidos a uma política salarial informal diferenciada, visto que pessoas negras recebem salários inferiores, se comparados com pessoas brancas que exercem a mesma função;
- as mulheres negras continuam, em sua maioria, a exercer funções ligadas ao cuidado da casa de pessoas brancas;
- as mulheres negras recebem salários ainda mais inferiores aos dos homens negros e brancos;
- as condições sociais e de convivência escolar nos excluem das escolas e universidades;
- somos e temos nossa cultura, religião e modo de viver associados ao demônio;
- somos apresentados ou associados a qualidades negativas.
A partir dessa realidade, temos consciência de que ainda há um longo caminho a ser percorrido na busca de dignidade de nosso povo. Para tanto, precisamos ser, continuamente, povo destemido, corajoso aos olhos de Deus, com força, poder para manter o sonho e o desejo de Palmares e de tantos outros quilombos vivos em nossos corações, corpos a ações.
Por toda essa CONSCIÊNCIA NEGRA, Zumbi e Palmares VIVEM!!!
VIVA 20 DE NOVEMBRO!!! VIVA A CONSCIÊNCIA NEGRA!!!


[1] Membro do CEBI-Minas Gerais e participante ativo e estudioso do movimento negro e das manifestações religiosas culturais negras, tais como Congadas, Folias de Reis. Filósofo formando pela UFU – Universidade Federal de Uberlândia e doutorando em Filosofia pela UFSCar – Universidade Federal de São Carlos. Atualmente mora em Teófilo Otoni, Minas Gerais, onde é professor da UFVJM – Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri.

Por que continuar lendo Paulo Freire? (Gadotti)

Há dez anos falecia Paulo Freire, maio de 1997. Nos dias que seguiram à sua morte, recebemos mais de 600 mensagens de condolências, enviadas à família e ao Instituto Paulo Freire que ele ajudara a criar seis anos antes. Todas essas mensagens eram verdadeiras manifestações de carinho e de imenso apreço pelo grande educador brasileiro. Elas mencionavam a profunda dor e tristeza pela perda de um mestre, mas, também, as saudades que ele deixava, evidenciando o impacto de sua práxis em muitas partes do mundo. Entre essas mensagens estão as de professores de aproximadamente 150 universidades, do Brasil e do exterior, o que demonstra a repercussão de suas idéias também no meio acadêmico.
Suas idéias podem ter despertado controvérsias, mas não a sua pessoa. Muitas das mensagens recebidas dizem textualmente: 'Minha vida não seria a mesma se eu não tivesse lido a obra de Paulo Freire. O que ele escreveu ficará no meu coração e na minha mente.' Essa relação entre o cognitivo e o afetivo é muito forte não só na vida dele, mas também na sua obra e naqueles que foram influenciados por ele.
As mensagens recebidas logo depois de sua morte revelaram o impacto teórico e afetivo sobre a vida de tantos seres humanos de todas as partes do mundo. Essas manifestações terminavam, freqüentemente, com o desejo de unir-se a outras pessoas e instituições para dar continuidade ao seu trabalho, ao seu compromisso, que era, sobretudo, o compromisso com os oprimidos. Não o compromisso com os oprimidos deste ou daquele lugar - da América Latina, por exemplo -, mas com os oprimidos de todo o mundo.
Paulo Freire era também um ser humano esperançoso. Não por teimosia, mas por 'imperativo histórico e existencial', como afirma no seu livro Pedagogia da Esperança. Ele nos deixou um legado de luta e de esperança que não pertence a uma pessoa ou a uma instituição. Pertence a quem precisa dele. Recordo o filme O Carteiro e o Poeta no qual o carteiro se apropriou de um poema de Pablo Neruda para seduzir sua namorada. O personagem que representava Pablo questionou o carteiro sobre a autoria do poema e o carteiro respondeu: 'A poesia não pertence àqueles que a escrevem, mas a quem precisa dela.
'Nesse livro ele afirma que 'pensar que a esperança sozinha transforma o mundo e atuar movido por tal ingenuidade é um modo excelente de tombar na desesperança, no pessimismo, no fatalismo. Mas prescindir da esperança na luta para melhorar o mundo, como se a luta se pudesse reduzir a atos calculados apenas, a pura cientificidade, é frívola ilusão' (p.10). Não nascemos esperançosos. Por isso precisamos de uma educação para a esperança.
É muito importante associar a pedagogia da esperança como concepção da educação, à pedagogia da luta. Essas pedagogias são inseparáveis no pensamento de Paulo Freire. Carlos Alberto Torres, um dos maiores estudiosos de Paulo Freire, afirma, em seu livro Pedagogia da Luta: Da Pedagogia do Oprimido à Escola Pública Popular, que luta e esperança são inseparáveis de sua teoria do conhecimento e de sua concepção de educação. Para Paulo Freire, diz ele, 'o conhecimento é uma construção social, constitui um processo de produção discursiva e não um mero produto final resultante do acúmulo de informações ou de fatos' (p. 151).
O objetivo que Paulo Freire se propunha era o de utilizar a educação para melhorar o mundo, neutralizando os efeitos da opressão, aliando educação a um projeto histórico de emancipação social. Luta e esperança não podem prescindir uma da outra nessa tarefa humanizadora. A prática educativa deveria traduzir essa visão emancipadora do conhecimento. Por isso, ele concebia a educação mais como um ato de construção de conhecimentos do que a simples transmissão de informações.
A teoria do conhecimento de Paulo Freire continua muito atual, em especial a resposta que deu à questão da aprendizagem a partir de quatro intuições originais:
1ª - a ênfase nas condições gnosiológicas do ato educativo;
2ª - a defesa da educação como ato dialógico;
3ª - a noção de ciência aberta às necessidades populares; e
4ª - o planejamento comunitário e participativo.
Diga-se o mesmo em relação a seu método. Para construir seu método de ensino, aprendizagem e pesquisa, Paulo Freire parte das necessidades dos educandos e não de categorias abstratas, entrelaçando quatro momentos interdependentes:
1º - ler o mundo, o que implica o cultivo da curiosidade;
2º - compartilhar o mundo lido, o que implica o diálogo;
3º - a educação como ato de produção e de reconstrução do saber;
4º - a educação como prática da liberdade.
A teoria e a práxis de Paulo Freire cruzaram as fronteiras das disciplinas, das ciências e dos espaços geográficos. Foram para além da América Latina. Ao mesmo tempo em que as suas reflexões foram aprofundando o tema que ele perseguiu por toda a vida - a educação como prática da liberdade -, suas abordagens se transbordaram para outros campos do conhecimento, criando raízes nos mais variados solos, fortalecendo teorias e práticas educacionais, bem como auxiliando reflexões não só de educadores, mas também de médicos, terapeutas, cientistas sociais, filósofos, antropólogos e outros profissionais. O seu pensamento é considerado um exemplo de transdisciplinaridade. Freire conseguiu fazer uma síntese pessoal original entre humanismo e dialética, o que confere um caráter muito atual a seu pensamento.
Paulo Freire continua sendo a grande referência de uma educação como prática da liberdade. Ele pode ser comparado a muitos educadores do século 20, mas nenhum, melhor do que ele, formulou uma pedagogia dos silenciados e da responsabilidade social, ao mesmo tempo dos oprimidos, dando-lhes voz, e daqueles que não são oprimidos, mas estão comprometidos com eles e com eles lutam. Colocar Paulo Freire no passado é não querer mexer na cultura opressiva de hoje.
Por que continuar lendo Paulo Freire? Alguns certamente gostariam de deixá-lo para trás na história das idéias pedagógicas e outros gostariam de esquecê-lo, por causa de suas opções políticas. Ele não queria agradar a todos. Mas havia uma unanimidade compartilhada por todos os seus leitores e todos os que o conheceram de perto: o respeito à pessoa. Paulo sempre foi uma pessoa cordial, generosa, muito respeitosa. Podia discordar das idéias, mas respeitava a pessoa, mostrando um elevado grau de civilização. E mais: sua prática do diálogo o levava a respeitar também o pensamento daqueles e daquelas que não concordavam com ele.
A pedagogia do diálogo que pensou e praticou se fundamenta numa filosofia pluralista. O pluralismo não significa ecletismo ou posições 'adocicadas', como ele costumava dizer. Significa ter um ponto de vista e, a partir dele, dialogar com os demais. É o que mantinha a coerência da sua prática e da sua teoria. Paulo era acima de tudo um humanista. Seria a única forma de 'classificá-lo' hoje.
A força da obra de Paulo Freire não está só na sua teoria do conhecimento, mas em ter insistido na idéia de que é possível, urgente e necessário mudar a ordem das coisas. Ele não só convenceu tantas pessoas em tantas partes do mundo pelas suas teorias e práticas, mas também porque despertava nelas a capacidade de sonhar com uma realidade 'mais humana, menos feia e mais justa', como costumava dizer. Como legado, nos deixou a utopia. As passagens mais bonitas das suas obras são as que ele escreveu sobre sonho e utopia.
Estamos diante de um educador que não se submeteu a correntes e tendências pedagógicas e criou um pensamento vivo orientado apenas pelo ponto de vista do oprimido. Essa é a ótica básica de sua obra, à qual foi fiel a vida toda: a perspectiva do oprimido. Esse compromisso nós podemos encontrar já na dedicatória do seu livro mais importante, Pedagogia do Oprimido, escrito no Chile, em 1968: 'Aos esfarrapados do mundo e aos que neles se descobrem e, assim descobrindo-se, com eles sofrem, mas, sobretudo, com eles lutam'.
A pergunta que podemos fazer hoje é a seguinte: esse ponto de vista é ainda válido? Caso não seja válido, já não haveria mais porque continuar lendo Paulo Freire. Ou melhor, Paulo Freire seria um autor já superado, porque sua luta pelo oprimido estaria superada. Ele passaria para a história como um grande educador, mas que não teria mais nada a dizer para o nosso tempo.
Pelo contrário, a sua pedagogia continua válida não só porque ainda há opressão no mundo, mas porque ela responde a necessidades fundamentais da educação de hoje. A escola e os sistemas educacionais encontram-se hoje frente a novos e grandes desafios diante da generalização da informação na sociedade que é chamada por muitos de 'sociedade do conhecimento', de sociedade da aprendizagem. As cidades, cada vez mais, tornam-se, como dizia ele, 'educadoras-educandas', multiplicando seus espaços de formação.
A escola, nesse novo contexto de impregnação do conhecimento, não pode ser mais um espaço, entre outros, de formação. Precisa ser um espaço organizador dos múltiplos espaços de formação, exercendo uma função mais formativa e menos informativa. Precisa tornar-se um 'círculo de cultura', como dizia Paulo Freire, muito mais gestora do conhecimento social do que lecionadora.
Nesse contexto, o pensamento de Paulo Freire é mais atual do que nunca, pois, em toda a sua obra ele insistiu nas metodologias, nas formas de aprender e ensinar, nos métodos de ensino e pesquisa, nas relações pessoais, enfim, no diálogo.
Devemos continuar estudando a sua obra, não para venerá-lo como a um totem ou a um santo, nem para ser seguido como a um guru, mas para ser lido como um dos maiores educadores críticos do século 20. Honrar um autor é sobretudo estudá-lo e revê-lo criticamente, retomar seus temas, seus problemas, seus questionamentos.
Moacir Gadotti, professor titular da USP e diretor do Instituto Paulo Freire em artigo para o jornal O Estado de S. Paulo, 27-05-2007 escreve sobre o legado do educador Paulo Freire.

E SE O NEGRO NÃO EXISTISSE?????????

Essa é a história de um garoto chamado Theo que acordou um dia e perguntou a sua mãe:
"Mãe, o que aconteceria se não existissem pessoas negras no mundo?" Sua mãe pensou por um momento e então falou: "Filho, siga-me hoje e vamos ver como seria se não houvesse pessoas negras no mundo".

E, então, disse: "Agora vá se vestir e nós começaremos". Theo correu para seu quarto e colocou suas roupas e sapatos. Sua mãe deu uma olhada nele e disse: "Theo, onde estão seus sapatos? E suas roupas estão amassadas, filho, preciso passá-las". Mas quando ela procurou pela tábua de passar, ela não estava mais lá. Veja, Sarah Boone, uma mulher negra, inventou a tábua de passar roupa. E Jan E. Matzelinger, um homem negro, inventou a máquina de colocar solas nos sapatos.

"Então... - ela falou - Por favor vá e faça algo em seu cabelo." Theo decidiu apenas escovar seu cabelo, mas a escova havia desaparecido. Veja, Lydia O. Newman, uma mulher negra, inventou a escova. Ora, essa foi uma visão... nada de sapatos, roupas amassadas, cabelos desarrumados.

Mesmo o cabelo da mãe, sem as invenções para cuidar do cabelo feitas por Madame C. J. Walker...Bem, vocês podem vislumbrar... A mãe disse a Theo: "Vamos fazer nossos trabalhos domésticos e, então, iremos ao mercado".

A tarefa de Theo era varrer o chão. Ele varreu, varreu e varreu. Quando ele procurou pela pá de lixo, ela não estava lá. Lloyde P. Ray, um homem negro, inventou a pá de lixo. Ele decidiu, então, esfregar o chão, mas o esfregão tinha desaparecido. Thomas W. Stewart, um homem negro, inventou o esfregão. Theo gritou para sua mãe: "Não estou tendo nenhuma sorte!"

Ela responde: "Bem, filho, deixe-me terminar de lavar estas roupas e prepararemos a lista do mercado". Quando a lavagem estava finalizada, ela foi colocar as roupas na secadora, mas ela não estava lá. Acontece que George T. Samon, um homem negro, inventou a secadora de roupas. A mãe pediu a Theo que pegasse papel e lápis para fazerem a lista do mercado. Theo correu para buscá-los, mas percebeu que a ponta do lápis estava quebrada.
Bem... ele estava sem sorte, porque John Love, um homem negro, inventou o apontador de lápis. A mãe procurou por uma caneta, mas ela não estava lá, porque William Purvis, um homem negro, inventou a caneta-tinteiro.

Além disso, Lee Burridge inventou a máquina de datilografia e W. A. Lovette, a prensa de impressão avançada. Theo e sua mãe decidiram, então, ir direto para o mercado. Ao abrir a porta, Theo percebeu que a grama estava muito alta. De fato, a máquina de cortar grama foi inventada por um homem negro, John Burr. Eles se dirigiram para o carro, mas notaram que ele simplesmente não sairia do lugar. Isso porque Richard Spikes, um homem negro, inventou a mudança automática de marchas e Joseph Gammel inventou o sistema de supercarga para os motores de combustão interna.

Eles perceberam que os poucos carros que estavam circulando, batiam uns contra os outros, pois não havia sinais de trânsito. Garret A. Morgan, um homem negro, foi o inventor do semáforo. Estava ficando tarde e eles, então, caminharam para o mercado, pegaram suas compras e voltaram para casa. Quando eles iriam guardar o leite, os ovos e a manteiga, eles notaram que a geladeira havia desaparecido.

É que John Standard, um homem negro, inventou a geladeira. Colocaram, assim, as compras sobre o balcão. A essa hora Theo começou a sentir bastante frio. Sua mãe foi ligar o aquecimento. Acontece que Alice Parker, uma mulher negra, inventou a fornalha de aquecimento. Mesmo no verão eles não teriam sorte, pois Frederick Jones, um homem negro, inventou o ar condicionado.

Já era quase a hora em que o pai de Theo costumava chegar em casa. Ele normalmente voltava de ônibus. Não havia, porém, nenhum ônibus, pois seu precursor, o bonde elétrico, foi inventado por outro homem negro, Elbert R. Robinson. Ele usualmente pegava o elevador para descer de seu escritório, no vigésimo andar do prédio, mas não havia nenhum
elevador, porque um homem negro, Alexander Miles, foi o inventor do elevador.

Ele costumava deixar a correspondência do escritório em uma caixa de correio próxima ao seu trabalho, mas ela não estava mais lá, uma vez que foi Philip Downing, um homem negro, o inventor da caixa de correio para a colocação de cartas e William Berry inventou a máquina de carimbo e de cancelamento postal.

Theo e sua mãe sentaram-se na mesa da cozinha com as mãos na cabeça. Quando o pai chegou, perguntou-lhes: "Por que vocês estão sentados no escuro?". A razão disso? Pois Lewis Howard Latimer, um homem negro, inventou o filamento de dentro da lâmpada elétrica.

Theo havia aprendido rapidamente como seria o mundo se não existissem as pessoas negras. Isso para não mencionar o caso de que pudesse ficar doente e necessitar de sangue. Charles Drew, um cientista negro, encontrou uma forma para preservar e estocar o sangue, o que o levou a implantar o primeiro banco de sangue do mundo.

E se um membro da família precisasse de uma cirurgia cardíaca? Isso não seria possível sem o Dr. Daniel Hale Williams, um médico negro, que executou a primeira cirurgia aberta de coração. Então, se você um dia imaginar como Theo, onde estaríamos agora sem os Negros? Bem, é relativamente fácil de ver.

Nós ainda estaríamos na ESCURIDÃO.

ALGUMAS PERSONALIDADES NEGRAS

Sarah Boone, foi a inventora da tábua de passar roupa.

Jan Matzelinger, foi o inventor da máquina de colocar solas nos sapatos.

Lydia Newman, uma mulher negra, inventou a escova para que todos nós pudéssemos arrumar nossos cabelos.

George Samon, foi o inventor da secadora de roupas.

John Love, foi o inventor do apontador de lápis.

Lee Burridge inventou a máquina de datilografia.

Richard Spikes, um homem negro, inventor da mudança automática de marchas.

Garret A. Morgan, foi o inventor do semáforo.

John Standard, foi o negro inventor da geladeira.

Frederick Jones, este foi o inventor do ar condicionado.

Alexander Miles, foi o inventor do elevador.

Charles Drew, foi o cientista que encontrou uma forma para preservar e estocar o sangue, o que o levou a implantar o primeiro banco de sangue do mundo.

Dr. Daniel Hale Williams, um médico negro, que executou a primeira cirurgia aberta de coração.

Martin Luther King
, foi um pastor protestante e ativista político estadunidense. Tornou-se um dos mais importantes líderes do movimento dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, e no mundo, com uma campanha de não violência e de amor ao próximo.

Zumbi, assassinado em 20 de novembro de 1695, foi o último dos líderes do Quilombo dos Palmares.

Gilberto Gil, nasceu em Salvador, Bahia, é um músico e político brasileiro.

Barack Obama, é um advogado e político dos Estados Unidos, primeiro presidente negro do mais poderoso país na atualidade, foi prêmio Nobel da Paz de 2009.

Nelson Mandela, é um advogado, ex-líder rebelde e ex-presidente da África do Sul de 1994 a 1999. Principal representante do movimento antiapartheid, como ativista e transformador da história africana. Considerado pela maioria das pessoas um guerreiro em luta pela liberdade.

domingo, 6 de novembro de 2011

LEITURA ORANTE DA BÍBLIA



Maria do Carmo de Oliveira
A Igreja se alimenta da Palavra de Deus que encontramos na Sagrada Escritura e que encontramos também na vida, na realidade. Deus fala nas coisas que acontecem e quem não procura entender as coisas da vida, os acontecimentos, a realidade atual, não pode entender a Bíblia, nem ouvir a Palavra que Deus quer dizer para nós. A Palavra de Deus, amplamente, abundantemente revelada, é o principal conteúdo da fé.
èO objetivo da leitura da Bíblia é ESCUTAR DEUS QUE FALA HOJE:
1.      É perceber em nossa vida, na vida da comunidade e da sociedade a presença ou a ausência do Plano de Deus.
2.      A leitura da Bíblia nos ajuda a interpretar a vida à luz da Palavra de Deus e se torna assim um serviço à vida e serviço à humanidade.
3.      Lemos a Bíblia para encontrarmos com o Deus da Bíblia que é o Deus da Vida, o Deus de Jesus Cristo, que veio a este mundo “para que todos tenham vida e a tenham em abundância”. (Jo,10,10)
è Procura do encontro com Deus:  Que Deus encontramos na Bíblia? Deus Libertador, Deus que está sempre conosco“Emanuel”, Deus que se revela na história e no grito dos pobres, Deus que fala pela vida e nos convoca a transformar este mundo em “Reino de Deus”.
èElementos importantes na formação bíblica:  Nossa missão exige que aprendamos a escutar com fé e fidelidade a Palavra de Deus através da realidade, na vida da Comunidade, da Igreja e especialmente na Bíblia. Para isso é necessário ter o hábito de ler, ler e ler a Bíblia sempre, criar intimidade, familiaridade afetiva com ela, respeitando-a, como se respeita a palavra de quem se ama.
A revelação do Plano de Deus que descobrimos na Bíblia tem a ver com nossa missão batismal. A educação permanente da fé está ancorada na palavra de Deus que descobrimos na Bíblia. A leitura da Bíblia nos faz compreender que a história da salvação que Deus faz conosco, se revela na história da humanidade; a história do povo da bíblia nos ajuda a descobrir caminhos para nos organizarmos e nos tornarmos hoje povo de Deus.
A formação bíblica é uma busca séria de leitura pessoal, reflexão, oração, estudo, usando subsídios, dicionários bíblicos, freqüência a escolas e cursos e principalmente a leitura comunitária da Bíblia “pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles” (Mt 18,20).
è Leitura Orante da Bíblia: Existem muitas formas de lermos a Bíblia. Mas nossa leitura como animadores e animadoras da fé em nossas comunidades, deve ser: leitura espiritual, leitura comprometida,  leitura militante, leitura transformadora. Não pode ser leitura ingênua, moralista ou fundamentalista. Olhando a história dos cristãos do passado e a vivência das Comunidades Eclesiais de Base, comunidade dos pobres de hoje, aprendemos um jeito antigo e sempre novo de nos aproximarmos da Bíblia. Nessa leitura há alguns elementos que são básicos para o uso da Bíblia.
            A leitura que parte da Realidade, fiel ao Texto, dentro da Comunidade é profunda, nos alimenta e nos leva a uma conversão constante, pois nos faz ter um olho da Vida e outro na Bíblia. Esses três critérios, ligados e articulados entre si, nos fazem ESCUTAR DEUS HOJE:  
A forma que vamos usar é a Leitura Orante da Bíblia, “Lectio Divina”. Com esse método, procuramos assimilar o que a mesma Bíblia nos diz em Dt 30,14: “A Palavra está muito perto de ti: na tua boca e no teu coração, para que a ponhas em prática”. A Palavra de Deus chega a nós por vários caminhos individuais e coletivos: através da Sagrada Escritura, da Igreja, da comunidade, da Liturgia, dos irmãos e irmãs, dos acontecimentos concretos e históricos. A Leitura Orante se serve de informações humanas, científicas, mas vai além, porque se torna uma experiência, um encontro pessoal entre nós e Deus. É escuta sincera e honesta da Palavra de Deus. Como se faz a LEITURA ORANTE DA BÍBLIA? Antes de tudo é colocar-se à luz do Espírito de Deus e pedir sua ajuda. São quatro degraus da Leitura Orante da Bíblia: Leitura, Meditação, Oração, Contemplação.
1º - Leitura:  A leitura é o primeiro passo, ou  degrau da Leitura Orante da Bíblia. Ler, reler, tornar a ler, cada vez mais, conhecer bem o que está escrito, até assimilar o próprio texto; respeitar o texto tal como ele é, sem interpretações precipitadas, sem achar que já conhece esse texto. A Sagrada Escritura é como uma fonte de água. A cada instante brota uma água nova que não é a mesma água do segundo anterior. É como um copo de água que você bebe. Só se bebe aquele copo d’água uma vez na vida. Assim cremos que seja a Palavra de Deus é sempre nova e atual. Ao ler o texto da Escritura, fazê-lo com o respeito de quem se encontra pela primeira vez. Estar atento para as palavras, as repetições, o jeito como está escrito, quem aparece no texto, em que lugar, o que fazem, o que falam... Muitas vezes precisaremos lançar mão de algum subsídio que ajude a entender o texto e o seu contexto histórico/social; usar estudos, dicionários bíblicos, livros, a ciência, a teologia e outros meios. De acordo com Dt 30,14 -“A Palavra está muito perto de ti: na tua boca” - é chegar perto da Palavra de Deus; a Palavra está na boca. Aqui descobrimos o que o texto diz em si mesmo.
2º Meditação: A meditação é o segundo degrau. Depois de ouvir e ler a Sagrada Escritura, de assimilá-la criativa e ativamente, vamos usar a imaginação, palavras, a repetição mental ou oral de uma palavra, uma frase, um versículo. Repetir de memória, com a boca, o que foi lido e compreendido. Vamos ruminar até que, da boca e da cabeça, passe para o coração. Já não é mais só o que o texto diz, mas o que esta palavra está dizendo hoje, o que me diz concretamente dentro da realidade em que estamos vivendo. O que Deus falou no passado e o que está falando hoje, através deste texto? É uma forma simples de meditação, um jeito de saborear o texto com cores e cheiros de hoje, da nossa realidade. “A Palavra está muito perto de ti: na tua boca e no teu coração”.
3º Oração: A meditação nos faz subir o terceiro degrau. A leitura e meditação se transformam em um encontro mais direto, íntimo e pessoal com Deus. Entramos em diálogo, em comunhão amorosa com Deus. Respondemos a Deus, pedimos que nos ajude a praticar o que a sua Palavra nos pede. O texto bíblico e a realidade de hoje nos motivam a rezar. O terceiro passo é a oração pessoal que pode desabrochar em oração comunitária, expressão espontânea de nossas convicções e sentimentos mais profundos. “A Palavra está muito perto de ti: ... no teu coração”.
4º Contemplação: É o transbordamento do coração em ação transformadora. “Para que ponhas em prática” (Dt 30,14). Contemplar não é algo intelectual, que se passa na cabeça, mas é um agir novo que envolve todo nosso ser. É contemplativa a pessoa que tem o “jeito novo” de ser, viver, ver e assumir a vida, conforme o projeto daquele que é o nosso único Mestre e que nos diz: “Vocês são todos irmãos” (Mt 23,8). A Leitura Orante se torna uma atitude continuada no dia-a-dia por uma ação transformadora – pessoal, comunitária, social, mundial.

Passos para Leitura Orante da Bíblia

1º Leitura: O que o texto diz?(Ler o texto várias vezes e procurar compreender o que ele está dizendo)
2º Meditação: O que o texto me diz? (Ruminar, trazer o texto para a própria vida e a realidade pessoal e social.) O que Deus está me falando?
3º Oração: O que o texto me faz dizer a Deus? (Rezar – suplicar, louvar, dialogar com Deus, orar com um salmo...)
4º Contemplação:  A partir deste texto como devo olhar a vida, as pessoas, a realidade... o que devo fazer de concreto? (O que ficou em meu coração e me desperta para um novo modo de ser e agir?)

fonte: redecelebra

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