quarta-feira, 16 de março de 2011

As mulheres não são homens

 


UMA HOMENAGEM ÀQUELAS QUE VERDADEIRAMENTE COMANDAM O UNIVERSO
Por Boaventura de Sousa Santos
Fonte  Agência Carta Maior, em 09/03/2011

No passado dia 8 de março celebrou-se o Dia Internacional da Mulher. Os dias ou anos internacionais não são, em geral, celebrações. São, pelo contrário, modos de assinalar que há pouco para celebrar e muito para denunciar e transformar. Não há natureza humana assexuada; há homens e mulheres. Falar de natureza humana sem falar na diferença sexual é ocultar que a “metade” das mulheres vale menos que a dos homens. Sob formas que variam consoante o tempo e o lugar, as mulheres têm sido consideradas como seres cuja humanidade é problemática (mais perigosa ou menos capaz) quando comparada com a dos homens. À dominação sexual que este preconceito gera chamamos patriarcado e ao senso comum que o alimenta e reproduz, cultura patriarcal.

A persistência histórica desta cultura é tão forte que mesmo nas regiões do mundo em que ela foi oficialmente superada pela consagração constitucional da igualdade sexual, as práticas quotidianas das instituições e das relações sociais continuam a reproduzir o preconceito e a desigualdade. Ser feminista hoje significa reconhecer que tal discriminação existe e é injusta e desejar activamente que ela seja eliminada. Nas actuais condições históricas, falar de natureza humana como se ela fosse sexualmente indiferente, seja no plano filosófico seja no plano político, é pactuar com o patriarcado.

A cultura patriarcal vem de longe e atravessa tanto a cultura ocidental como as culturas africanas, indígenas e islâmicas. Para Aristóteles, a mulher é um homem mutilado e para São Tomás de Aquino, sendo o homem o elemento activo da procriação, o nascimento de uma mulher é sinal da debilidade do procriador. Esta cultura, ancorada por vezes em textos sagrados (Bíblia e Corão), tem estado sempre ao serviço da economia política dominante que, nos tempos modernos, tem sido o capitalismo e o colonialismo. Em Three Guineas (1938), em resposta a um pedido de apoio financeiro para o esforço de guerra, Virginia Woolf recusa, lembrando a secundarização das mulheres na nação, e afirma provocatoriamente: “Como mulher, não tenho país. Como mulher, não quero ter país. Como mulher, o meu país é o mundo inteiro”.

Durante a ditadura portuguesa, as Novas Cartas Portuguesas publicadas em 1972 por Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, denunciavam o patriarcado como parte da estrutura fascista que sustentava a guerra colonial em África. "Angola é nossa" era o correlato de "as mulheres são nossas (de nós, homens)" e no sexo delas se defendia a honra deles. O livro foi imediatamente apreendido porque justamente percebido como um libelo contra a guerra colonial e as autoras só não foram julgadas porque entretanto ocorreu a Revolução dos Cravos em 25 de Abril de 1974.

A violência que a opressão sexual implica ocorre sob duas formas, hardcore e softcore. A versão hardcore é o catálogo da vergonha e do horror do mundo. Em Portugal, morreram 43 mulheres em 2010, vítimas de violência doméstica. Na Cidade Juarez (México) foram assassinadas nos últimos anos 427 mulheres, todas jovens e pobres, trabalhadoras nas fábricas do capitalismo selvagem, as maquiladoras, um crime organizado hoje conhecido por femicídio. Em vários países de África, continua a praticar-se a mutilação genital. Na Arábia Saudita, até há pouco, as mulheres nem sequer tinham certificado de nascimento. No Irão, a vida de uma mulher vale metade da do homem num acidente de viação; em tribunal, o testemunho de um homem vale tanto quanto o de duas mulheres; a mulher pode ser apedrejada até à morte em caso de adultério, prática, aliás, proibida na maioria dos países de cultura islâmica.

A versão softcore é insidiosa e silenciosa e ocorre no seio das famílias, instituições e comunidades, não porque as mulheres sejam inferiores mas, pelo contrário, porque são consideradas superiores no seu espírito de abnegação e na sua disponibilidade para ajudar em tempos difíceis. Porque é uma disposição natural, não há sequer que lhes perguntar se aceitam os encargos ou sob que condições. Em Portugal, por exemplo, os cortes nas despesas sociais do Estado actualmente em curso vitimizam em particular as mulheres. As mulheres são as principais provedoras do cuidado a dependentes (crianças, velhos, doentes, pessoas com deficiência). Se, com o encerramento dos hospitais psiquiátricos, os doentes mentais são devolvidos às famílias, o cuidado fica a cargo das mulheres. A impossibilidade de conciliar o trabalho remunerado com o trabalho doméstico faz com que Portugal tenha um dos valores mais baixos de fecundidade do mundo. Cuidar dos vivos torna-se incompatível com desejar mais vivos.

Mas a cultura patriarcal tem, em certos contextos, uma outra dimensão particularmente perversa: a de criar a ideia na opinião pública que as mulheres são oprimidas e, como tal, vítimas indefesas e silenciosas.

Este estereótipo torna possível ignorar ou desvalorizar as lutas de resistência e a capacidade de inovação política das mulheres. É assim que se ignora o papel fundamental das mulheres na revolução do Egipto ou na luta contra a pilhagem da terra na Índia; a acção política das mulheres que lideram os municípios em tantas pequenas cidades africanas e a sua luta contra o machismo dos lideres partidários que bloqueiam o acesso das mulheres ao poder político nacional; a luta incessante e cheia de riscos pela punição dos criminosos levada a cabo pelas mães das jovens assassinadas em Cidade Juarez; as conquistas das mulheres indígenas e islâmicas na luta pela igualdade e pelo respeito da diferença, transformando por dentro as culturas a que pertencem; as práticas inovadoras de defesa da agricultura familiar e das sementes tradicionais das mulheres do Quénia e de tantos outros países de África; a resposta das mulheres palestinianas quando perguntadas por auto-convencidas feministas europeias sobre o uso de contraceptivos: “na Palestina, ter filhos é lutar contra a limpeza étnica que Israel impõe ao nosso povo”.


*Boaventura de Sousa Santos é sociólogo e professor catedrático da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (Portugal).

segunda-feira, 14 de março de 2011

Haiti e Japão - Aquecimento Global


 

Roberto Malvezzi (Gogó)

A tragédia japonesa – embora ainda longe de ser avaliada em todas as suas dimensões – põe em crise algumas afirmações extremamente arrogantes do mundo da ciência e da técnica, particularmente aquelas postas a serviços de setores poderosos no mundo de hoje.

Em primeiro, quando aconteceu o terremoto no Haiti, houve unanimidade em dizer que “se fosse no Japão praticamente não teria conseqüências”. Claro, a tecnologia japonesa evitou o que poderia ser muito pior. Entretanto, os mortos já contados, os milhares de desaparecidos ainda não devidamente contabilizados, mostram que, diante da fúria da Terra em transe, nenhuma tecnologia é de tão poderosa que possa evitar todas as tragédias.

Segundo, com a retomada do programa nuclear brasileiro, começando aqui pelo São Francisco, o argumento posto na praça é que “hoje existe uma segurança que não havia no tempo de Chernobyl”. Mais uma vez a assertiva não se sustenta. A Terra em fúria é capaz de pôr em risco qualquer pretensa segurança nuclear. Ainda mais, como os resíduos têm efeitos ativos por cerca de mil anos, ninguém sabe como será nosso planeta durante esse milênio. O certo é que será muito diferente do que é hoje. Portanto, mais que a arrogância da técnica e da ciência, espera-se uma boa dose de bom senso e responsabilidade com as gerações atuais e futuras.

Finalmente, existe uma pergunta crucial: há alguma relação entre o aquecimento global e o aumento dos fenômenos sísmicos?

Nenhum cientista põe a mão no fogo para dizer que sim. Entretanto, há várias insinuações que pode haver. No encontro para debater catástrofes no Brasil, Câmara dos Deputados, uma professora da UNB insinuou que poderia haver uma correlação, mas não se aprofundou.

Fiz essa pergunta numa lista latinoamericana de pessoas envolvidas com o debate sobre mudanças climáticas. Um climatologista da Universidade de Buenos Aires, Eduardo Agosta, assim respondeu:

“Em geral a teoria diz assim: o aquecimento global, entre outras coisas, gera um aumento do nível do mar (por expansão e/ou derretimento do gelo), o qual, por sua vez, gera mudanças na distribuição da massa superficial da Terra, a qual, por sua vez, muda a velocidade angular da Terra (variações na velocidade de rotação da Terra). Estas mudanças de velocidade de rotação podem alterar o movimento do magma terrestre, gerando variações na pressão interna sobre as placas tectônicas e, portanto, alterações na atividade sísmica da Terra. Contudo, se deveria estudar cada uma destas fases, antes de asseverar a relação direta entre Aquecimento Global e terremotos.”

Portanto, guardadas todas as devidas restrições, é bom pôr a barba de molho

A Bíblia e a historicidade dos fatos

Ildo Bohn Gass


A Bíblia não é um livro de ciências e nem um livro de história

Assim como os livros da Bíblia não são livros de ciência, assim também não podemos lê-los simplesmente como livros de história. A Bíblia é como um espelho em que, através da história do povo hebreu, está refletida a história da humanidade. Eis por que identificamos quase espontaneamente situações que o povo de Israel viveu com situações que estamos vivendo hoje. Assim também identificamos personagens da Bíblia com personagens de nosso tempo, como se Caim e Abel, Abraão e Sara, Moisés e o Faraó, Jeremias e Amós continuassem no meio de nós.


A Bíblia é interpretação da história

Nem tudo o que está narrado nos livros da Bíblia conhecidos como históricos aconteceu do jeito como está escrito. É que, mais do que fazer uma descrição dos fatos como se fossem filmagem, as Escrituras interpretam a história, a vida. Descrevem a experiência de Deus que as pessoas e o povo fazem. Por isso, é correto dizer que, ao estudarmos um texto bíblico, estamos na verdade interpretando uma interpretação.


Na Bíblia, há várias interpretações da mesma história

Dentro da própria Bíblia tem diferentes interpretações a respeito da mesma história.

Por exemplo, a história da tomada da terra narrada no livro de Josué não é a mesma que está narrada no livro dos Juízes. Para exemplificar, veja como em Josué se afirma que toda a Terra Prometida já estava libertada das mãos dos reis (Js 11,23; 21,43-45). Porém, logo adiante, no livro de Juízes, se afirma que ainda faltava muito por conquistar (Jz 1,21.27-35).

Para entender estas diferenças, é importante ter presente que foi um longo processo que essas histórias percorreram até serem fixadas na forma escrita como as temos hoje. Cada texto tem sua intenção teológica. São interpretações diferentes e até contraditórias dos mesmos fatos históricos.

Há, inclusive, uma evolução na reflexão teológica, como se pode perceber, por exemplo, na atribuição dos males que vêm em prejuízo do povo.

Um caso é o recenseamento que o rei Davi fez (2Sm 24,1-15). No v. 10, nos é dito que realizar o censo é pecado. Certamente é pecado, porque parecia querer limitar o poder de Deus, a quem pertence o poder sobre a vida das pessoas. Também é pecado, porque visa fornecer ao rei o número de pessoas para poder melhor explorá-las através dos impostos e para saber o número de homens aptos a serem recrutados para a guerra (v. 9). Quando este texto é escrito, pensava-se ainda que Deus era também o autor do mal. Por isso, diz no v. 1 que foi Deus que incitou a Davi para que fizesse o censo. Quando, séculos mais tarde, o mesmo fato é contado novamente, já houve uma evolução na reflexão teológica em Israel. Agora, o mal já não vem mais de Deus, mas vem de Satã (1Cr 21,1).


A Bíblia nasceu aos poucos

Como podemos ver, a Bíblia é um livro que nasceu aos poucos. Nasceu da vida de um povo que tentou ser fiel a Deus presente no cotidiano.

Antes do texto escrito vêm experiências vividas pelas mais diferentes pessoas e em lugares variados. Todas essas experiências foram sendo contadas, recontadas durante muito tempo. Só então a memória virou texto.

Sobre os mesmos fatos foram surgindo diferentes tradições de acordo com o meio onde eram narradas, recontadas e escritas. Na cidade, nos palácios e no templo a reelaboração era de um jeito. No campo era de outro. Cada qual de acordo com seus condicionamentos, interesses, limites e horizontes.

Aos poucos, as tradições foram agrupadas dentro de narrativas ou conjuntos maiores, adquirindo um novo colorido, fornecendo respostas novas a novas necessidades, até o texto chegar à sua redação final como o temos hoje.


A Bíblia não quer transmitir os fatos, mas a intenção, a mensagem a partir dos fatos

Além disso, a Bíblia não descreve uma história "factual", mas "intencional". O mais importante não é o "fato" em si, mas a "intenção" que o autor quer transmitir. Consequência disso é que a pergunta certa a ser feita ao texto bíblico não pode ser: "o fato foi ou não foi assim?", mas sim: "qual a intenção de quem escreveu o texto?", ou: "o que o texto quer dizer?", ou ainda: "qual sua mensagem?".

Para exemplificar o que acabamos de refletir, lembremo-nos da estória de Caim e Abel (Gn 4). Aqueles que lêem esse texto como fato histórico não conseguem explicar de onde veio a mulher de Caim, quando naquele momento, se lemos o texto ao pé da letra, apenas existiam Adão, Eva e Caim. Se, no entanto, vamos ao texto em busca da intenção do autor, do sentido do texto, certamente encontraremos uma resposta.


A Bíblia não é fotografia nem filmagem, mas raio-X, isto é, revela a vida por dentro

A Bíblia não apresenta fotografias ou filmagens dos acontecimentos. Sua interpretação dos fatos vai além das aparências, da cara, da fachada. Por isso é melhor compará-la com um raio-X, isto é, a Bíblia nos revela o sentido profundo que está dentro dos fatos, por trás das palavras. Revela a presença misteriosa de Deus na vida, na história, nas pessoas.

Mais do que uma história de fatos, a Bíblia contém teologias da história. São diferentes maneiras de perceber a presença de Deus nos fatos, das suas maravilhas na vida de seu povo. O que lhe interessa é a pulsação da presença de Deus nas veias dos acontecimentos. A comunidade israelita faz como que "pinturas" e, às vezes, quadros diferentes de uma mesma realidade. Assim acontece com as duas "pinturas" da criação, logo no início do livro do Gênesis.

Compare a primeira narrativa da criação (Gn 1,1-2,4a) com a segunda (Gn 2,4b-25) e perceba como o povo da Bíblia pinta dois quadros muito diferentes para revelar o sentido profundo da vida. A primeira reflete a situação de sofrimento do povo no exílio da Babilônia ao redor de 550 a.C. A segunda, ao relatar o plano de Deus para a criação e a humanidade, retrata como o povo alimentava sua esperança na época da opressão do rei Salomão ao redor de 950 a.C.


A Bíblia nos quer revelar a presença amorosa de Deus na vida

Continuando a usar imagens para comparar as Escrituras, poderíamos dizer ainda que a Bíblia é como um binóculo. Quando ficamos olhando para ele, nós só enxergamos ele mesmo, o binóculo. Porém, quando olhamos através dele, vemos o horizonte de outro jeito, com outra perspectiva. Assim também é a Sagrada Escritura. Olhando à distância, ela parece um livro qualquer. Mas se olhamos através dela, aquilo que está por trás das palavras, atrás da lente desse "binóculo", então percebemos sua intenção, que é revelar a presença amorosa de Deus na vida, nos acontecimentos.


Deus se manifestou no passado e continua se manifestando no presente

Uma coisa que nos deixa com um pé atrás em relação à Bíblia é a facilidade e frequência com que se diz que Deus apareceu e falou com alguns personagens como Noé, Abraão e Sara, Agar e Jacó, Rebeca e Moisés, Elias e tantos outros. Será que apareceu cara a cara e falou com sua voz? Ora, sabemos que Deus não tem cara e sua voz não vibra no ar. Mas também sabemos que, para comunicar nossas experiências mais profundas, temos que usar imagens. Nós, que temos fé, sabemos que Deus está invisivelmente presente em nossa vida, conhecemos os traços do seu rosto e escutamos sua voz, sobretudo em momentos decisivos.

O povo tem razão quando diz: "Deus te ouça!", "Deus te guarde!", "Vai com Deus!" e outras expressões que manifestam a presença atuante de Deus em todos os nossos passos. Só podemos falar de Deus através de imagens e figuras.


(abraços boa leitura - Luiz Marles)

quarta-feira, 9 de março de 2011

A crise do Filho do Homem


Leonardo Boff *

A interpretação teológica da morte de Jesus na cruz, como sacrifício por nossos pecados, fez-nos esquecer com demasiada pressa os reais motivos históricos que o levaram ao tribunal religioso e político e por fim ao assassinato na cruz.
Cristo não foi simplesmente a doce e mansa figura de Nazaré. Foi alguém que usou palavras duras, não fugiu a polêmicas e para salvaguardar a sacralidade do templo, usou também da violência física. O contexto de sua vida, como as pesquisas recentes mostraram, é comum a dos camponeses e artesãos mediterrâneos que viviam uma resistência radical, mas não violenta contra o desenvolvimento urbano de Herodes Antipas e o comercialismo rural de Roma, imposto na Baixa Galiléia -terra de Jesus - que empobrecia toda a população. Pregou uma mensagem que constituiu uma crise radical para a situação política e religiosa da época. Anunciou o Reino de Deus em oposição do reino de César e em vez da lei, o amor.
Reino de Deus apresenta duas dimensões, uma política e outra religiosa. A política se opunha ao Reino de César em Roma que se entendia filho de Deus, Deus e Deus de Deus, os mesmos títulos que os cristãos mais tarde irão atribuir a Jesus. Tal atribuição a Jesus era intolerável para um judeu piedoso e um crime de lesa-majestade para um romano. A outra versão, a religiosa, se chamava apocalíptica que significava: face às perversidades do mundo, esperava-se a intervenção iminente de Deus e a inauguração de um Reino de justiça e de paz.
Jesus se filia a esta corrente. Apenas com a diferença: o Reino é um processo que apenas começou e vai se realizando à medida em que as pessoas mudam mentes e corações. Só no termo da história ocorrerá a grande virada com um novo céu e uma nova Terra. Essa eutopia (realidade boa), não a Igreja, é o projeto fundamental de Jesus. Ele se entende como aquele que em nome de Deus vai acelerar semelhante processo. Essa concepção de Reino colocou em crise os vários atores sociais, os publicanos e saduceus, aliados dos romanos, a classe sacerdotal, os guerrilheiros zelotas e principalmente os fariseus. Estes são os opositores principais do Filho do Homem, pois ao invés do amor pregavam a rigidez da lei, no lugar de um Deus bom, "Paizinho" (Abba), um Juiz severo.
Para Jesus Deus é um Pai com características de mãe misericordiosa.
Jesus faz desta compreensão o centro de sua mensagem. Entende todo poder como mero serviço. Rejeita as hierarquias porque todos somos irmãos e irmãs, sem mestres e pais.
A crise que suscitou, levou à decretação de sua morte na cruz. Jesus entrou numa aguda crise pessoal, chamada pelos estudiosos de "crise da Galiléia". Sente-se abandonado pelos seguidores, vislumbra no horizonte a morte violenta, como a dos profetas. A tentação do monte Getsêmani representa um paroxismo: "Pai afasta de mim este cálice". Mas também o propósito de tudo suportar e de levar seu compromisso até o fim. Na cruz grita quase desesperado: "Meu Deus, por que me abandonaste"? Mesmo assim continua chamando-o de "Meu Deus". A Epístola aos Hebreus testemunha: "Entre clamores e lágrimas, suplicou Àquele que o podia salvar da morte". Versões críticas antigas dizem "e não foi atendido…, apesar de ser Filho de Deus teve que aprender a obedecer por meio dos sofrimentos" (5,7-8).
Sua última palavra foi: "Pai em tuas mãos entrego o meu espírito", expressão suprema de uma confiança ilimitada. De fato, ele é apresentado como o protótipo do homem que suportou até o fim o fracasso do projeto de vida, crendo num sentido radical mesmo dentro do absurdo existencial.
A ressurreição mostrou o acerto de tal atitude. Foi a base para proclamá-lo mais tarde como Filho de Deus e Deus encarnado.

* Teólogo e professor emérito de ética da UERJ

Textos sagrados (Lc 1,47-55)



                                                                                               Por Maria Soave

Vivo minha existência na insistência de partilhar, sobretudo com mulheres, crianças e empobrecidos, Vida e Bíblia.
Nas aulas de catequese das irmãs ursulinas (uma congregação católica romana) e nas faculdades de teologia, do mundo onde eu nasci e fui criada, sempre me disseram que Vida e Bíblia não andam bem abraçadas.
Aprendi, na minha formação doutrinal e acadêmica, que a Vida e a Bíblia não se olham de frente, entre iguais. A catequese das irmãs ursulinas e a doutrinas das faculdades de teologia me ensinaram que a Bíblia e a Vida não andam abraçadas, não constroem amor, numa troca de toques, respiros, choros e alegrias. A Bíblia, texto sagrado de nossa religião, é o texto mais importante, mais importante da Vida mesma... tanto é que, normalmente, escrevemos Bíblia com letra maiúscula e não fazemos a mesma coisa todas as vezes que escrevemos a palavra "vida"...
È ela, a Bíblia, que ilumina a Vida, aquela vida assim, comum, cotidiana e corriqueira e lhe dá a sacralidade que esta vida, por si mesma, não possui.
Por longos anos percebi vidas murcharem porque procuravam o sagrado fora delas. Corpos de mulheres e homens entristecidos e envergonhados porque criados em pensar que "o Sagrado" cheira incenso, toalhas brancas, túnicas alvejadas, mãos imaculadas e sem calos e não cozinha, panelas, roupa para lavar, crianças para criar, terra para lavrar, mãos e sonhos calejados...
Nestes anos de bênção e vocação como missionária nestas terras amadas, no meio de mulheres, crianças e pessoas empobrecidas, percebi que existe um feitiço ruim que os poderosos colocaram na religião e a paralisaram. Fizeram da religião ( palavra que vem do latim e significa re-ligar) algo que não junta mais Fé e Vida, Bíblia e Vida, os Corpos e o Corpo que é o Cristo. E a religião virou triste, mandona, seca e vazia...
Vivo minha existência na insistência de partilhar, sobretudo com mulheres, crianças e empobrecidos, Vida e Bíblia.
No mundo onde fui criada sempre me disseram que Vida e Bíblia não andam abr0açadas. A Bíblia é sagrada e superior em relação à Vida... mas o meu coração não consegue entender estas coisas de "superior"... "sobre"...
Para mim, que vivo de vocação e sonho é preciso sonhar...
Falar de Bíblia significa falar de textos...Gosto de saborear, bem baixinho e devagar, esta pequena palavra... textos... é sensual esta palavra... a raiz antiga desta palavra, nos traz a palavra "tecido", aquele produto feito de mil fios diferentes, trançados com magia e alquimia num tear... Produto feito de milhares, milhões de fios e do sonho das mãos de quem trançou... tecido... texto...
Da palavra texto e da palavra tecido vem também a "roupa" que veste a nossa alma, uma roupa tão transparente que a deixa muitas vezes exposta para olhares atentos.
É tecido o nosso coração... É tecido a nossa pele... É tecido nosso Corpo... Transparência de alma...
Quando falamos, então, de textos sagrados, queremos falar dos tecidos feitos de muitos fios, de muitas histórias e pessoas, trançados com magia e alquimia pelo Deus Libertador da História das pessoas empobrecidas. Quando falamos de textos sagrados, queremos falar dos nossos corpos, das nossas vidas, suores, corações e peles que tocam os textos da Bíblia, que com eles se entrelaçam, fazem amor, choram, se alegram e brigam, para que a Vida de mulheres, crianças e empobrecidos possa ter a última palavra (Jo 10,10).
Minh’alma é um tecido, um texto feito quase todo de águas. Conheço este meu texto de águas todas as vezes que suo de emoção, de calor, de cansaço ou de prazer. Meu corpo é um texto, um tecido de águas. Esta água que é meu " corpoalma" é sagrada!
Conheço este meu texto de água quando, a cada lua, o sangue visita meus dias, quando os rins purificam ou quando lágrimas de alegria, de tristeza ou de saudade percorrem o meu rosto. È esta "almacorpo", feita de água, que abraça outro tecido vivo que é a Bíblia e, neste abraço amoroso e curioso, o sagrado acontece e a Vida volta a ser plena e viva!
È dela que eu aprendi muito do que acabo de escrever. È em memória dela que estou falando. Na memória dela e das muitas mulheres que, como ela, fizeram do "corpoalmacorpo" espaço sagrado da revelação da vida em plenitude.
Dela sabemos o nome (coisa rara nas mulheres da Bíblia), um nome tão comum e corriqueiro, como o cheiro de cozinha ou de uma enorme trouxa de roupa suja para lavar: MARIA. Crescida nos duros códigos patriarcais do mundo judaico, onde a pureza e a sacralidade não moravam nos corpos das mulheres, mas no corpo duro dos sacerdotes que anunciavam com suas vestes brancas, imaculadas e sininhos pindurados nas túnicas sua chegada no templo.
Dela sabemos o nome, um nome tão comum como o cheiro se suor, como as lágrimas, como o sangue e os humores das luas nos corpos das mulheres...MARIA.
Tinha sido criada pensando que o Verbo, a Palavra fosse mais importante e sagrada do que o corpo de mulheres e empobrecidos.
Um sonho teimoso morava no "corpoalmacorpo"de Maria, um sonho herdado das mães na Fé; sonho de Agar, de Tamar, de Rute, de Bersabéia e de Raab ( Mt 1,1-17)... o sonho de corpos enamorados pelo projeto de Deus, de um mundo de paz e de relações re-criadas... corpos enamorados, por isso, Almas ressuscitadas!
Maria disse sim ao sonho que orava na sua "almacorpoalma". O texto, o tecido, o Corpo do Povo da Caminhada de Libertação e o Deus Libertador, fez amor com o Corpo de Maria... suores... humores... lágrimas... prazeres... sangue... José, homem novo... sonho de uma outra masculinidade feita de cuidado e ternura... E o Texto, a Palavra, o Verbo se fez Carne na Carne de Maria (Jo 1,1ss). A Vida do Filho de Deus começou a nadar nas águas interiores da barriga da alma da Mãe de Deus:
"A minha alma anuncia a grandeza do Senhor.
O meu espírito está alegre por causa de Deus, meu Salvador.
Pois ele lembrou de mim, sua humilde serva!
De agora em diante todos vão me chamar de mulher abençoada
Porque o deus poderoso fez grandes coisas por mim." ( Lc 1, 47-49)
Lembrando, neste mês de março, do "SIM" de Maria e do "NÃO" das muitas Marias operárias que lutaram, no dia 8 de março, contra a discriminação das mulheres e, por isso, morreram queimadas numa fábrica de TECIDOS!
É de textos-tecidos que a Vida nos leva a falar. É com estes tecidos, que são os corpos de mulheres, crianças e empobrecidos que precisamos nos comprometer!
Amém!

A Quaresma e a tristeza divina


                                                                                                       Rubem Alves

"Porque a tristeza de Deus produz mudança... mas a tristeza do mundo produz morte." II Co 7:10

As quaresmeiras aí estão. Flores de fevereiro e março, anunciando que nem só de cores brancas e verdes vive a alma humana, mas também de lilases e roxas. Nem só de alegrias, mas também de tristezas. A propósito, não é tarefa das mais fáceis empreender um "dedo de prosa", mínimo que seja, sobre o tema da tristeza. Houve tempos em que a tristeza era prima irmã da poesia, da musica, da vida. Pode-se dizer, com o testemunho de um bom numero de musicas que ainda hoje cantamos que a tristeza sempre foi a matéria primado fazer poético. Quem nunca cantou: "Tristeza, por favor, vai embora, minha alma que chora, está vendo o seu fim...". Ou ainda: "Cantando eu mando a tristeza embora..." Mais: "Triste madrugada foi aquela em que perdi meu violão..."

Essas músicas testemunham um tempo em que a experiência da alegria e da beleza só eram possíveis a partir do reconhecimento de uma certa tristeza nas pautas musicais da existência. Os tempos hoje são outros. Num projeto de vida em que as pessoas são tidas como máquinas, qualquer sombra de melancolia, de tristeza, de dor, deve ser abolida. Por uma simples razão: máquina não sente dor! Aos saudosos e melancólicos do presente, resta-lhes apenas o afogar-se nos remédios. É assim que lidamos com nossas tristezas: afogando-nos nos compridos.

O trecho da tradição bíblica que está em epígrafe acima faz referência à tristeza segundo Deus. Dorothee Sölle assim o interpretou: A presença divina nunca é presença observadora: a presença divina é sempre dor ou alegria de Deus. Mas, o que distingue a tristeza divina das tristezas do mundo? pergunta o apóstolo dos gentios. Tristeza do mundo é tristeza que gira em torno de si mesma, patina sem sair do lugar. É tristeza que paralisa no remorso, na lástima, no mórbido ruminar as faltas passadas, na lamuria sem fim. Nada se transforma, nada se metamorfoseia, nada muda. É tristeza que não conhece a esperança, o futuro, por estar afogada no passado. É Tristeza que mata, que corrói, que faz adoecer. Como exemplo, atente-se às tristezas próprias do mundo da aparência: a anorexia, a bulimia, sofrimento de um corpo que morre para parecer belo. Ou a tristeza do consumo: esse mal-estar diabólico que leva do nada a lugar nenhum. A tristeza da guerra, da destruição que faz morrer a palavra e perpetua o ódio.
A tristeza segundo Deus, porém, produz mudança, movimento, superação, transformação, produz vida. É tristeza que não patina nas culpas, mas avança na responsabilidade. Tristeza de parturiente, que traz a esperança e o futuro no ventre. É tristeza que gera a sagrada ira, a santa indignação, o grito, a libertação. Sem a participação na tristeza divina, o domingo da ressurreição não passa de oba-oba. Que as quaresmeiras e os ipês roxos, também próprios do tempo quaresmal, nos convidem a participar da tristeza segundo Deus, aquela que verdadeiramente nos conduz à mudança, ao arrependimento, à transformação."

E por falar em tristeza, com autorização do Edson, lembro o Jobim: "Assim como o oceano só é belo com o luar, assim como a canção só tem razão se se cantar, assim como uma nuvem só acontece se chover, assim como o poeta só é grande se sofrer..." A poesia é o triunfo sobre o sofrimento. Lembro também a Adélia Prado: "Minha mãe me dava o peito e eu escutava, / o ouvido colado à fonte dos meus suspiros: / "Ó meu Deus, meu Jesus, misericórdia". / Comia leite e culpa de estar alegre quando fico./ Se ficasse na roça ia ser carpideira, puxadeira de terço, / cantadeira, o que na vida é beleza sem esfuziamentos, / as tristezas maravilhosas. Mas eu vim pra cidade fazer versos tão tristes /que dão gosto, meu Jesus misericórdia. / Por prazer da tristeza eu vivo alegre." " Cantiga triste, pode com ela / é quem não perdeu alegria."

- Manhã de sábado, aqueles jovens em vestes cor marrom, seres de um outro mundo, quem sabe anjos descidos à terra, sorridentes, nos semáforos, falavam aos homens comuns entrincheirados nos seus carros, apressados, e pediam que os ajudassem no seu trabalho: ajudar os pobres das nossas ruas. Anjos da "Toca de Assis", nascida há 10 anos, em Campinas. Têm 6 casas. Num texto bíblico uma mulher disse a Jesus que ela ficaria feliz se pudesse comer das migalhas que caem da mesa dos que se banqueteiam. As migalhas que caem da mesa...Acontece comigo. Acho que acontece com todo mundo. A gente vai ajuntando coisas e mais coisas, coisas que nunca serão usadas. Para nós, migalhas que nunca serão comida. Para os pobres são comida, proteção, calor, vida... Já comecei a abrir gavetas e armários em busca de migalhas... Já fiz uma pilha de camisetas.

Esse texto acima me chegou via Internet. A pessoa que o escreveu é um jovem, amigo, pastor de uma Igreja Presbiteriana no Rio de Janeiro, Edson Fernando de Almeida. . Imagino que essa tenha sido a essência de uma meditação que ele ofereceu aos seus fiéis: pouquíssimas palavras, todas elas necessárias. Sabedoria e beleza. Alegra-me saber que as palavras de Deus ainda podem ser ouvidas saindo da boca dos poetas. Eu teria alegria em me assentar nos bancos da igreja do Edson para ouvir sua palavra mansa. As coisas que ele fala ou, quem sabe, as coisas que o Espírito fala através dele, põem beleza na minha tristeza. E a tristeza, quando é bela, se transforma em vinho que dá leveza ao coração. Me alegrarei ao ver as quaresmeiras floridas...

- Acho que deveria haver alguma lei que proibisse que as pessoas falassem palavras de consolo àqueles que choram a morte de uma pessoa querida nos velórios. Porque parece que os velórios têm o poder de emburrecer a inteligência, razão porque as pessoas se põem a dizer asnices. Abraçando, com ar grave, o marido que chora a morte da esposa: "É preciso ser forte"! Mas será que o marido deseja ser forte naquele momento? Será que o seu desejo não é entregar-se ao seu choro, coisa que ele é impedido de fazer por ter que dar atenção aos impertinentes? De que serve tal conselho? Palavras ditas a uma mãe que chora a morte do filho pequeno: "Deus também precisa de anjinhos no céu..." Se Deus precisa de anjinhos no céu e é todo poderoso, não seria melhor que ele, com o seu poder, fizesse quantos anjinhos quisesse, sem matar os filhos dos indefesos mortais? Matar os filhos dos mortais por interesse próprio, eu acho, não é prova de amor. Olhando o rosto do defunto: "Veja como ele está tranquilo..." Mas é claro. Tem de estar tranquilo. Está morto. "Deus sempre faz o melhor..." Se Deus sempre faz o melhor então os velórios deveriam ser lugar de risos e danças. Mas, cá comigo: se isso é o que Deus tem de melhor a fazer, então é melhor ficar longe dele. Acho que diante do mistério da morte e de uma pessoa que sofre só cabe o silêncio.

- Comovo-me ao ver as casas antigas, espremidas entre os edifícios. São como bois nos matadouros. Estão à espera do sacrifício. ( Ao re-ler esse texto percebi que cometi um lapso freudiano. Meus dedos escreveram o que eu não queria escrever. Ao invés de "estão" meus dedos escreveram "estou". Maldito Freud! ). Comovo-me pensando que houve um tempo em que aquela casa era o sonho, quem sabe de um casal. Conversavam, marido e mulher, fazendo planos. Seriam muito felizes. Plantariam flores no jardim. Hoje, as casas estão abandonadas, vazias. No caminho para Pocinhos passo sempre numa entrada onde está escrito "Sítio do Vovô". O vovô sonhou com os netos brincando no seu sítio. Tudo seria alegria. Veio depois a descoberta de que os netos tinham outras idéias. E essas outras idéias não previam passar os fins de semana no "sítio do vovô".
Eu dirigia devagar, não queria chegar, a tarde era fresca, céu azul, brisa de outono, ouvia o CD da Anne Sofie von Otter, cantora maravilhosa, foi-me invadindo uma sensação nostálgica, saudade pura, sem objeto. A saudade, normalmente, é saudade de alguma coisa, de alguém, de uma casa, de um lugar. Mas, por vezes, é só o sentimento puro, sem objeto. Você nunca sentiu isso, a memória só de um sentimento, sem saber a que ele pertence? Sabia que eram sentimentos de outros tempos, de outros lugares, tudo muito bonito. Tive então uma idéia meio louca. Quando as pessoas ficam velhas é comum que elas percam a memória. Para isso há explicações bioquímicas e neurológicas. Mas eu pensei se a explicação não poderia ser outra. Que os bioquímicos se ponham a fazer o seu trabalho de esquecimento atendendo a um pedido da alma que não suporta mais a saudade. Esquecemo-nos para nos curar da saudade. "Toda saudade é uma espécie de velhice", dizia o Riobaldo. O que mais dói na velhice não são as juntas; é a saudade. E assim vamos, de esquecimento em esquecimento, até chegarmos ao esquecimento definitivo...

- Relatado por minha amiga Tomiko, de uma conversa com um menininhho. "Como é que você se chama?" "Francisco." "Só Francisco, não tem outro nome?" "Sim, eu tenho outro nome. Meu outro nome é Deus." "Deus? Mas que fantástico! Como é que você se sente quando é Deus?" "Quando o meu nome é Deus eu fico todo alegria!"

- Aforismo, não sei de quem: "A morte é bela. O que atrapalha é o defunto."

A MÍSTICA DA PROFECIA ATUAL

Luiz Marles
texto publicado em     http://cebijovem.blogspot.com/2011/03/mistica-da-profecia-atual.html


Na iminência de encontrar uma sociedade justa e fraterna muitos jovens exaurem suas forças na esperança de ver a transformação ocorrer, mesmo com tantas catástrofes que os ronda a todo instante.
Diante de tantos desafios nesse mundo globalizado, a juventude que é tida como contribuinte no processo de transformação da sociedade em que participa, não pode se sentir desprovida dessas possibilidades. São crises econômicas e mudanças de paradigmas. Mudanças racionais e irracionais (tudo ocorre). Sentimentos complexos e atitudes antagônicas com a prática cristã, pois esquecem que o espírito de Deus dinamiza todos os seres vivos. Não podemos ficar parados, pois o Senhor nos condiciona a prática do bem.
“Estou numa grande angústia” (2Sm 24,14). Essas palavras do rei Davi são pertinentes a realidade vivida por cada um de nós necessitados da clemência do Senhor, por causa da usurpação e acúmulo neste reino deixado aos nossos cuidados. Somos movidos pelo espírito de Deus. A fortaleza do Senhor permanece conosco. Essa certeza precisa clarear todo nosso ser e reacender a mística. E quem sabe reascender-nos para um novo ardor missionário pautando-se nas denúncias daqueles profetas que ligados aos povos excluídos e marginalizados procuravam saciar suas angústias.
Todos são responsáveis por melhorarem os espaços em que vivem. Urge no mundo novos Miquéias, Amós e tantos outros que se angustiaram com a opressão praticada pelos gananciosos exploradores do povo. O socorro sempre vem. Mas não vamos em busca do socorro. Precisamos ser aqueles que socorrem. É necessário agir. Ser protagonista e não um parasita. É preciso tocar nas feridas e incomodar esses perseguidores astutos.
Tendo atitude profética não ficaremos apenas em discursos inflamados que somente esquentam o coração. É preciso atingir o âmago, sentir-se corroído de insatisfação, injúria e ser provocado a atuar decididamente na promoção do Reino. Toda essa ansiedade deve fazer parte da vida de quem conhece a proposta salvífica do Senhor, que como nos diz Isaías, nos conhece e nos chama pelo nome mesmo que a gente ainda não o conheça. E, Ele por conhecer nossa pequenez procura sanar os anseios que temos dando-nos a plenitude. Plenitude essa que possibilita ser mensageiro da paz, levando a todos os povos a certeza de um mundo melhor com nossa atitude.
Não nos conformemos com as insanidades impostas pelos grupos privilegiados, sejamos ousados e verdadeiros indo na contramão da história de quem só deseja oprimir.


Luiz Marles
Assessor do CEBI – Campos Belos - Goiás

segunda-feira, 7 de junho de 2010

O MÊS DA BÍBLIA NESTE ANO DE 2010 NOS SOLICITA UMA REFLEXÃO SOBRE O LIVRO DE JONAS

JONAS, O ENVIADO DE DEUS
A história do profeta Jonas narrada na Bíblia, é descrita de uma forma literária belíssima, agradável e ao mesmo tempo suscitadora de uma grande curiosidade. Quem começa a lê-la deseja chegar logo ao fim, para saborear o desfecho feliz dos fatos e as alegrias da bondade e misericórdia de Deus, que trata com rigor suas criaturas e ao mesmo tempo tem para com elas amor e ternura, próprias de um pai que deseja somente o bem de seus filhos.
Neste ano teremos a oportunidade de refletir sobre esse texto, que relata uma história de amor. Amor de Deus pelas suas criaturas, das quais ele cuida com esmero, carinho e desejo de que sejam felizes nesta terra e possuam a vida eterna. Deus chama Jonas e o envia a anunciar aos ninivitas a destruição da cidade, se eles não se arrependerem de seu mau comportamento e se converterem à prática do bem.
Conta esta história, que Nínive, a capital da Assíria, não se distinguiu tanto pela cultura ou pelo comércio, mas por seu exército e por suas armas. Era um povo de famosos guerreiros que exerceram o poder com dureza e tirania, tanto que Nínive é lembrada na história como símbolo da cidade inimiga, por excelência. Para Jonas, a ordem de Deus, de ir pregar a conversão em Nínive, pareceu-lhe uma loucura, um absurdo. Ele teme e cai no desânimo! Como é possível que Deus dê uma ordem dessas? Então ele não conhece a maldade que reina nessa cidade? Quem sou eu para falar em conversão para esse povo? E decide não atender ao pedido absurdo de Deus.
Jonas pretendia fugir e, tomando um navio, partiu para Tarsis. A viagem, porém, tornou-se penosa, pois se levantou uma tormenta em alto mar, que ameaçava toda a embarcação. As ondas tornavam-se cada vez mais violentas e o navio estava em perigo. Os marinheiros esforçavam-se e chegaram até mesmo a atirar a carga do navio ao mar, a fim de aliviar a embarcação. E Jonas, onde está? Somente ele não participa do trabalho insano da tripulação, que já se dá por vencida, pois a tempestade não amaina. Ele dorme!
Diante da incapacidade humana de serenar a tempestade e de acalmar as ondas revoltas do mar em fúria, os marinheiros lançam a sorte para ver quem é o culpado de tamanha ira. Ela recai sobre Jonas. Interpelado, diz que está fugindo por não querer cumprir a ordem de Deus. Pede então, para ser atirado ao mar a fim de que se acalme. Assim os marinheiros fazem. A tempestade amaina e tudo volta ao normal.
Estamos diante de uma narrativa, é verdade, mas imaginemos o que passa pela cabeça de uma pessoa que sofre situação semelhante. O sofrimento é profundo e inesquecível! Temos aqui vários fatores a serem considerados. Deus tem um plano de salvação para os ninivitas. A fim de realizá-lo envia um mensageiro que deverá anunciar ao povo a destruição da cidade, se as pessoas não se arrependerem de seus pecados e não se converterem.
O mensageiro, porém, desafia o próprio Deus! Ele não concorda com tamanha bondade e misericórdia para com os ninivitas. Então foge, tomando o rumo inverso.
Jonas se comporta como um irresponsável. Não se preocupa com o que poderá acontecer com os moradores de Nínive, se ela for destruída. Simplesmente toma sua decisão e segue um caminho que o levará a outro destino. Agora está tranquilo com a própria consciência e bem acomodado. Tudo parece resolvido. Respira aliviado e... dorme!
Já pensamos quantas vezes desanimamos e fazemos o papel de Jonas na vida? Reclamamos quando é grande demais a tarefa que nos conferem? Enfrentamos com coragem os desafios que surgem na execução dos afazeres? Procuramos desculpas para desobrigar-nos de nossas responsabilidades?
Essas perguntas poderão levar-nos a sérias reflexões que nos ajudarão a perceber se pautamos nossa vida, nosso trabalho, nossas relações, nossos próprios sentimentos em convicções profundas que formam nosso caráter e equilíbrio, dotando-nos de uma personalidade única e inconfundível.

ORIGEM E FORMAÇÃO DA BÍBLIA

1. Indícios e evidências históricas
O período histórico da formação da Bíblia situa-se entre 1100 a. C. ou 1200 a.C. a 100 d.C. Provavelmente, a mais antiga parte escrita da Bíblia é o cântico de Débora, que se encontra no livro dos Juízes (Jz, 5).
Quando os hebreus chegaram a Canaã, já havia na terra um certo desenvolvimento literário, como por exemplo, o alfabeto fenício (do qual se derivou o hebraico), que já existia no século XIV a. C. Os judeus chegaram lá por volta do século XIII a.C. Outro documento desta época é o calendário de Gezér, que data mais ou menos do ano 1000 a.C. É uma indicação de datas para uso dos agricultores. É o documento mais antigo encontrado na Palestina. Outro documento também muito antigo é o sarcófago do Rei Airam, que contém uma inscrição e foi encontrado nos séculos XIV ou XV a. C., em Biblos. Há ainda umas tabuletas encontradas em Ugarit (em 1929), onde estão escritos uns poemas semelhantes aos salmos, datando dos séculos XIV ou XV a.C.
Além destes, há outros documentos provando que já havia uma escrita na Palestina, antes dos hebreus chegarem lá. A inscrição do túmulo de Siloé (700 a.C.), explicando como foi feito; os "óstracon", de Samaria, onde há uma espécie de carta diplomática, são documentos que provam a continuidade de uma atividade literária. Em Juizes 8,14, o autor descreve um acontecimento ocorrido mais ou menos em 1100 a.C. E em que língua foi escrito este fato pela primeira vez, na época em que aconteceu? Provavelmente no alfabeto fenício (pré-hebraico).
2. A tradição oral e a tradição escrita
A parte mais antiga da Bíblia remonta justamente deste tempo (1100 a.C.), quando a escrita ainda não estava bem definida, e é oral. Desde este tempo já se fora criando uma tradição, que existia oralmente e era transmitida aos novos pelos mais velhos nas reuniões que havia nos santuários. Por este tempo, só eram relatados os acontecimentos do deserto, do Sinai, da aliança de Deus com o povo. Mas os jovens queriam saber o que havia acontecido antes disto. Então foram sendo compostas as histórias dos Patriarcas. Mas, e antes deles, antes de Abraão? Passaram à história da criação do mundo. Por isso, se afirma que a parte mais antiga da Bíblia é o Cântico de Débora, no livro dos Juizes. A partir daí, fez-se um retrospecto didático-histórico.
Como dissemos, estas histórias iam sendo passadas oralmente de pai a filho, nos santuários. Acontece que nem todos iam para os mesmos santuários, o que motivou a existência de pequenas diferenças na catequese do norte e na do sul. A tradição do sul foi chamada de JAVISTA (J), pois Deus era tratado sempre por Javé; a do norte se chamou ELOISTA (E), porque Deus era tratado como Eloi.
A tradição oral existiu até os tempos de Daví, quando foi escrita a tradição javista; meio século depois, foi escrita também a eloista. Por volta de 721 a.C., na época, da divisão dos reinos, quando Samaria foi destruída pelos assírios, muitos sacerdotes do norte fugiram para o sul e levaram consigo a sua tradição. A partir de então, as duas foram compiladas num só escrito.
Falamos das duas tradições: uma do norte e outra do sul. Mas não existiam apenas estas duas, que são as principais. Há ainda a DEUTERONOMICA (D), encontrada casualmente em 622 a. C. por pedreiros, que trabalhavam num templo. Corresponde ao livro Deuteronômio da Bíblia atual. Após esta, surgiu a SACERDOTAL (P), nova compilação das catequeses antigas de Israel, datada do século VI a.C. Ao fim, estas quatro tradições foram combinadas entre si e compiladas em 5 volumes, dando origem ao Pentateuco da Bíblia atual. Na tradição Javista, Deus é antropomórfico. Na Sacerdotal, Deus é poderoso, está acima do tempo, o que significa um progresso no conceito de Deus que o povo tinha. A redação do Pentateuco se deu pelo ano 398 a.C. e compreendia a primeira parte da Bíblia judaica.
A partir de Josué, a tradição continuou oral, para ser escrita somente por volta de 550 a.C. E foram escritas do modo como o povo contava. Por isso não se pode dar a mesma importância histórica aos fatos descritos nestes livros em relação a outros posteriores, pois alguns fatos narrados foram baseados na tradição popular, enquanto que outros foram baseados em documentos de arquivos (anais do Reino). Este é um grande desafio para os estudiosos e também uma fonte de divergências.
3. Os Intérpretes - Profetas e Sábios
Durante muito tempo, os profetas foram os orientadores do povo de Deus. Os livros proféticos resumem os seus ensinamentos, e na sua maioria foram escritos só mais tarde, por seus seguidores. Somente por volta do ano 200 a.C. é que foram redigidos os livros proféticos. Os livros Sapienciais foram o resultado de um estilo literário que esteve em moda durante muito tempo, na época posterior ao exílio. São umas reflexões humanistico-religiosas. Passados os profetas, surgiram os sábios que raciocinavam sobre as coisas da natureza, tirando delas ensinamentos para a vida. Foram acrescentados aos livros sagrados nos últimos séculos a.C., sendo os mais recentes livros do AT.
4. A nova tradição da era cristã
O NT não foi escrito com a finalidade de ser acrescentado à Bíblia. No tempo de Cristo e dos Apóstolos, o livro sagrado era apenas o AT. O próprio Jesus Cristo se baseava nele em suas pregações. E Ele mandou apenas pregar, e não escrever. Foi quando uma nova tradição oral foi se formando. E após a morte de Cristo, os apóstolos saíram pregando.
Mas veio a necessidade de congregar outras pessoas para o anúncio, em vista do grande número de comunidades existentes. Então, começaram a escrever. Mais tarde, com a aceitação também de cidadãos estrangeiros nas comunidades, a mensagem precisou ser traduzida e adaptada. Além disso, o próprio povo necessitava de uma escrita (doutrina escrita) para se conservar una, após a morte dos Apóstolos. Esta redação, no início, era apenas de alguns escritos esparsos, que só depois de algum tempo foram juntos em livros. Exemplo disso está em Mc 2, uma série de disputas de JC com os Judeus, onde se vê claramente que foi recolhida de escritos separados. Também em João se lê: "Muitas outras coisas Jesus fez que não foram escritas..." (Jo 21,24) Isto significa que só foram escritas aquelas mensagens que teriam utilidade, conforme as necessidades momentâneas.
O evangelho de Marcos, o primeiro a ser escrito, data dos anos 60 ou 70 d.C.; os de Lucas e Mateus, são de 70 ou 80, o que significa que somente após uns 40 anos da morte de JC sua palavra começou a ser escrita. 0 Evangelho de João só foi escrito em torno do ano 100 d.C. Antigamente, se acreditava ser Mateus o autor do primeiro Evangelho. Mas a critica histórica mostra que o de Marcos foi anterior. Aliás, a respeito deste evangelho de Mateus, não se sabe ao certo quem é o seu autor. Foi atribuído a Mateus, apenas por uma tradição e também por uma praxe da época de se atribuir um escrito a alguém mais conhecido e famoso, para que a obra tivesse mais autoridade.
5. Entendendo algumas dificuldades concretas
Durante o tempo anterior á escrita dos Evangelhos, havia apenas a pregação dos Apóstolos, recordando os fatos da vida de Cristo, todavia eram fatos esparsos, sem nenhuma preocupação com seqüência ou unidade. Por isso os Evangelhos, que foram esta pregação escrita, se contradizem em algumas datas, o que mostra a pouca importância dada à cronologia. Os fatos eram recordados e aplicados, conforme as necessidades. Assim, até entre os Evangelhos sinóticos, que seguiram a mesma fonte, há diversificações. Por exemplo, no Sermão da Montanha, em Lucas fala "bem aventurados os pobres"; e em Mateus, "bem aventurados os pobres de espírito". A diferença consiste no seguinte: Lucas deu um sentido social, mais importante para as comunidades gregas, para as quais escrevia. Mas o de Mateus destinava-se às comunidades judias e queria combater uma doutrina dos judeus que tinham uma idéia falsa de pobreza. Para eles, o próprio fato de a pessoa ser pobre, já lhe garantia a salvação, enquanto outra pessoa, pelo simples fato de ser rica, já estava condenada. Por causa disso ele escreveu "pobres de espírito".
Outro ponto de discordância é o caso da cura de um cego. Mateus diz "um cego, na saída de Jericó"; e Lucas "dois cegos, na entrada de Jericó". 0 fato da 'entrada' e 'saída' pode ser explicado pela existência de duas cidades chamadas Jericó. 0 fato de serem um ou mais cegos explica-se pelo seguinte: era comum naquele tempo os cegos formarem grupos em torno de um cego-lider; e o nome deste geralmente era o do grupo. No entanto, estes detalhes pouco importam ao evangelho. 0 seu interesse é a apresentação da mensagem (evangélion = boa nova).
6. A fonte comum
Os Evangelistas sinóticos se basearam no Evangelho de Marcos e noutra fonte, convencionada por fonte "Q", simbolizando os inúmeros escritos esparsos de que já tratamos. Espalharam cópias destes por outras partes do mundo. Lucas, Mateus, cada um em lugares diferentes, se inspiraram nos escritos disponíveis e inclusive no evangelho de Marcos, que na época já havia sido escrito. O fato do primeiro Evangelho ser atribuído anteriormente a Mateus se deve a uma afirmação de Eusébio de que Mateus escrevera a "logia" do Senhor em aramaico. Mas a crítica histórica provou que o Evangelho que conhecemos não traz apenas a "logia" do Senhor e não foi escrito em aramaico, e sim em grego. Portanto a noticia de Eusébio se refere a outro escrito, e não a este evangelho. Nada impede, porém, que tenha sido escrito por discípulos de Mateus e atribuído ao Mestre. Aliás, a respeito de "Evangelho", o primeiro a usar esta palavra para indicar as memórias dos Apóstolos foi S. Justino, em 130 d.C.
7. As Cartas
As cartas de Paulo foram enviadas para serem lidas em público. Em I Tes 5, 27 há uma alusão a isto. Havia também o intercâmbio das cartas, como se lê em Col 4,16: "mostrem esta carta para Laodicéia e tragam a de lá para vocês". Aos poucos as cartas foram colecionadas, e no fim do I século já se tem notícia delas, quando em II Ped 3,15 se lê: "...nosso irmão Paulo vos escreveu conforme o dom que lhe foi dado... "As cartas de Paulo foram os primeiros escritos do NT. Não se sabe quando os Evangelhos e elas foram acoplados, mas já no fim do I século estavam reunidos num só livro.
As Epistolas católicas (universais) são chamadas assim por se destinarem à Igreja em geral, e não a tal ou qual comunidade, como fizera Paulo. Elas também se originaram da necessidade pastoral, e já no começo do II século estavam incorporadas aos outros escritos do NT. Os Atos dos Apóstolos podem ser considerados a continuação do terceiro Evangelho, pois também foi escrito por Lucas. E o Apocalipse de S.João, livro profético, foi acrescentado por último.
Nos escritos do NT, freqüentemente se encontram citações do AT. É que muitas vezes os Apóstolos queriam tirar dúvidas sobre certas passagens, que tinham falsa interpretação. Nas assembléias, eram lidos escritos do AT e do NT, para explicá-los. Exemplo disto temos em 1º Tes 4,15; 1º Cor 7,10.25.40; At 15, 28; 1º Tim 5,18; Lc 10,7.
8. O Cânon Sagrado
No século III, a Igreja se reuniu em Concilio em Hipona, e uma das tarefas era organizar o "cânon", ou a lista de livros sagrados considerados autênticos. Neste Concilio, os livros foram estudados e se investigou quais os que sempre foram lidos nos cultos e sempre foram considerados legítimos. E se estabeleceu a ordem ainda hoje conservada. O motivo pelo qual alguns livros foram postos em dúvida era a grande quantidade de livros apócrifos, que fazia com que se duvidasse dos verdadeiros. Havia muitos livros que os judeus não aceitavam. Então os Ss. Padres ponderaram os prós e contras e definiram a lista que foi aprovada.

Bons estudos e que Deus os abençôem

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